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Sueli
Andruccioli Felix (*)
É muito comum nos depararmos com comparações estapafúrdias
de criminalidade entre regiões (cidades, países, bairros
etc.) com características urbanas e populacionais completamente
diferentes entre si. A criminalidade tem uma dinâmica diferenciada
conforme as características espaciais e sócio-demográficas
da população. Em função disso, não
existem fórmulas e indicadores “frios” para análises
comparativas, como se vê com certa freqüência. Mesmo
a análise de uma única cidade deve levar em conta as diferenciações
e características do espaço e da população
dos seus bairros. Os crimes cometidos em um bairro de classe média,
por exemplo, não podem ser analisados com os mesmos elementos causais
dos ocorridos em bairros de condições sócio-econômicas
inferiores. Se assim fosse, o título deste artigo poderia ser considerado
em seu sentido estrito, visto ser uma verdade em termos de índices.
Enquanto em 2006, em Marília, ocorreram 4,5 homicídios por
100 mil habitantes, nos EUA a média de homicídios ocorridos
nas suas cidades ficou em 5,7 por 100 mil habitantes.
Da mesma forma, comparar Marília com outras cidades
apenas por ter a mesma população, também provocaria
sérios desvios estatísticos (quantas cidades européias
de alta qualidade de vida têm a mesma população de
Marília?). Quem assistiu à palestra ocorrida nas dependências
da OAB, no dia 30/01 p.p., e às comparações entre
os níveis de qualidade de vida de Barueri e Marília, sabe
do que estamos falando. A única quase semelhança entre as
duas cidades é o número de habitantes, ambas com mais de
200 mil habitantes (Marília, 218mil e Barueri 252mil, conforme
o IBGE 2007). Sabidamente, apesar das diversas favelas, Barueri concentra
a população mais rica do país em seus inúmeros
condomínios de luxo, como os conhecidos Alphaville, Granja Viana
e tantos outros, o que alteram os indicadores médios de renda,
PIB etc.
Em relação à violência, especificamente,
queremos fazer comparações entre cidades do interior com
população aproximada e com indicadores sociais e uma história
de ocupação com muitas semelhanças: Marília,
Presidente Prudente, Araraquara, São Carlos, Rio Claro e Americana.

Fonte: Secretaria de Segurança Pública do Estado de São
Paulo
www.ssp.sp.gov.br
Enquanto no ano de 2005, Marília exibiu os maiores índices
de homicídios dolosos (com intenção de matar) por
100 mil habitantes, entre as cidades apresentadas, nos anos subseqüentes
houve uma forte redução nas ocorrências, com a maior
variação negativa de todos esses municípios: diminuição
de 75% dos homicídios. Isso significa que os homicídios
passaram de mais de 14 por 100 mil habitantes em 2005, para pouco mais
de 3 (3,5 por 100 mil hab.) em 2007. Em números absolutos, passaram
de 31 para 8 homicídios ao ano.
Nos 03 últimos anos houve redução
em todos os crimes de destaque e, também, os mais reclamados por
prevenção, por parte da população (homicídio,
latrocínio, roubo e furto). Os roubos decresceram quase 40% e os
furtos 22%. Os únicos que em 2007 permaneceram no mesmo patamar
de 2005 foram furtos e roubos de veículos (houve 153 ocorrências
em 2005, 147 em 2006 e 155 em 2007). Se analisarmos apenas as cifras,
esses indicadores colocam Marília nos mesmos níveis de muitas
cidades de países desenvolvidos.
Término este artigo reproduzindo a mesma frase
sobre estatística, de Jean-Louis Besson, usada pelo Sr. Antonio
Luiz Carvalho Leme, na palestra acima citada: “As cifras não
são nada, não valem nada sem um discurso que lhes atribua
sentido. Este discurso normalmente é falacioso, sempre problemático.”
E acrescento que as cifras podem dizer nada ou podem
dizer tudo: depende do quanto amamos a nossa cidade e a queremos cada
dia melhor!
Total de Ocorrências
Registradas em Marília nos anos de 2005 a 2007

Fonte: Secretaria de
Segurança Pública do Estado de São Paulo
www.ssp.sp.gov.br
Doutora em Geografia pelo
IGCE – Unesp/Rio Claro
Professora do Curso de Pós-Graduação em Ciências
Sociais da Unesp
Coordenadora do Comitê Gestor de Segurança e Qualidade de Vida
da Prefeitura Municipal de Marília
Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Violência e Segurança
– GUTO e LEVS/Unesp. |